O Mar que separa também une | Pintura e Poesia, Um só Horizonte
A obra Conexões (2025), criada a partir do poema “Há cidades cor de pérola…” de Herberto Helder, reúne rostos de mulheres amigas, familiares e até de antepassados que nunca conheci, mas que, de alguma forma, contribuíram para a minha existência e identidade. A intimidade e a preciosidade sugeridas pelo poema conduziram-me à criação de uma homenagem a estas mulheres, cujas identidades, organizadas em retângulos justapostos, se cruzam com a minha.
Em «Carta à Amada», reconheço o sentir e o imaginar como motores da escrita, percebendo que, para o poeta, talvez seja suficiente que as suas palavras alcancem a amada. A pintura No Alto (2025) nasce desse diálogo, voltando-se para o próprio poeta e para um sentimento difícil de nomear: a coexistência entre presença e ausência, como a luz das estrelas que continua a brilhar mesmo depois de morrerem. O céu imenso — que deslumbra, faz sonhar e suscita perguntas — paira sobre uma cadeira de sala de estar que convida à contemplação desse céu noturno velado pela paisagem diurna. À frente, o pontão, orientado para a outra margem que o olhar alcança, eleva-se sobre o mar, onde o céu se reflete.
Na minha interpretação do poema «O Barulho do Mar e do Vento», a pintura Anseio (2025) surge como uma tentativa de traduzir diretamente as imagens evocadas pelo poeta. O som do mar e do vento remetia-me para o desconhecido, para além do visível, e por isso enquadrei-o numa janela que lembra um quadro. Procurei organizar os elementos em sintonia com a narrativa. Para a “montanha impraticável”, representei o Pico, a montanha mais alta de Portugal, que experienciei como símbolo de superação — embora, na pintura, apareça invertida, como se desafiasse a gravidade. Coloquei-a nas costas da figura masculina deitada que escuta o mar e o vento. Esta desmultiplica-se pelo espaço: no plano superior da casa, um homem isolado contempla e reflete; no plano inferior, o mesmo homem escuta o sussurro da terra, com a montanha afastada, vinda de um plano superior — quase como uma ameaça possível, se a imaginarmos associada à forma de um tornado.
A pintura realizada nas Calhetas nasce da relação afetiva com este lugar da infância e com o horizonte que habita o meu imaginário. Pintada no local, integra o movimento mutável do ambiente, resultando em recortes definidos pela fixação do olhar ou pelo próprio processo construtivo. No contexto da exposição O Mar que separa também une, decidi pintar esse horizonte onde se vê a encosta da ilha e o mar, lugar onde o sol se põe no limite entre o céu e a terra, encerrando mais um dia. Esta ilha oferece-me pacificidade e abriga quase todos os que mais amo — aqueles que tantas vezes são a minha inspiração, motivação e inquietação — sem que isso me impeça de querer viajar, descobrir novos territórios e culturas, e revisitar lugares e pessoas.
2025 | Texto redigido para a Exposição
Descentralizar - O Spot
O movimento do nosso olhar está relacionado com atratores de atenção, fixando-nos em pontos. A palavra “Spot” provem da conexão a um espaço de encontro e do que nos move dirigirmo-nos ao mesmo. Neste sentido, “Descentralizar - O Spot” surgiu da vontade de focar-me em algo exterior ao que predominava no pensamento _ um desejo de mudança. Daí a ponte com este lugar, onde retorno muitas vezes e que destaco no espaço. Dirigi-me para este fragmento da minha rede, de modo a poder definir melhor o tempo segundo as prioridades. Para além de abrir-me mais para o exterior. Geri as emoções e todo o resto focando-me no que é importante para mim e no que me traz reconforto.
As pinturas surgem como oferendas, demonstrações de apreço. Objetos carregados de memórias a que atribuo muito valor e que me concedem a significância. Talvez a minha origem e percurso sortudo trazem consigo uma certa infantilidade que se reflete na parte pictórica. No entanto, incidi-me no que considero mais nobre. Numa fase inicial deste momento, vinha-me à mente a pintura do “Não estar/ Estar”. Daí a sua presença neste grupo.
2024 | Texto redigido para a Exposição
Entre o Banal
Entre o Banal foi o título escolhido para um conjunto de pinturas criadas a partir de fotografias capturadas, a maioria por mim, a ambientes do meu dia a dia, sobretudo de lazer, onde as pessoas foram o principal foco de atenção. Identifiquei-me com as mesmas ou suscitaram a minha atenção de algum modo, bem como os locais, incluindo a sua organização espacial.
Aquela poça é um pequeno excerto, conferindo uma maior segurança, menor risco, contudo não deixa de ser um espaço limitado. As rochas remeteram-me para a conotação do peso, associado também à postura da mulher agachada, imaginando as causas e levando-me a outros ambientes e situações de obrigatoriedade, repetição, submissão e aceitação _ a análise corporal e contextual conduziu-me a uma interpretação ficcional ou não, surgindo de uma forma espontânea. Conjuntamente, associo aos momentos passados em que nos propusemos colecionar rochas, para nos recordarmos dos lugares e das vivências, mesmo que essas memórias estejam desvanecidas. Existe uma dualidade.
As paisagens tropicais das viagens passadas fazem-me desejar futuras, onde fixei-me, querendo um certo distanciamento do dia a dia, de forma a abrir-me para o exterior, absorvê-lo como novidade que é, e desejando obter prazer, deslumbre, descanso, aventura e conhecimento de uma forma lúdica.
Um pontapé de uma criança faz me lembrar da vontade, na infância, de querermos dar o salto mais alto e longe do chão, como acrobacia, um feito e sensação de liberdade, erguendo-nos aos céus.
Uma mãe tenta descomprimir dos seus dias dando um mergulho e banhando-se ao sol, junto da sua filha, das suas melhores companhias, que se fixa possivelmente no telemóvel, em posição de feto, virada para um dos seus pilares e porto seguro.
Um momento, que pode ser curto, possui diversas imagens, onde a narrativa torna-se diferente por anulação ou seleção de informação, alterando a nossa perceção e atribuição de significados. A junção de fragmentos de diferentes espaços físicos e temporais, origina outras imagens que, na pintura, podem tomar forma através dos modelos, do seu posicionamento, dimensão, forma, interação, entre outros, obtidos através da matéria ou da sua ausência, neste caso da pincelada e cor sobre a tela, sendo eu o veículo e condutor. Houve uma procura, por vezes, de transmitir emoções e vivências, sobretudo através do que é figurativo, no entanto há sempre o subconsciente que atua de uma forma menos previsível, há situações que necessitam de um certo distanciamento para conseguirmos ler de forma mais clara o que
construímos, uma reflexão.
A pincelada, em certas circunstâncias, seguiu uma procura, no entanto é algo mais intuitivo, de certo modo impulsivo e descontrolado, apesar de já haver um lado mecânico que resulta da prática _ pode ter havido tentativas de imprimir volumetria, expressões ou até proporções, com uma forte ligação ao mundo interno e externo, na medida que reagimos a ele, naquilo que surge nos nossos pensamentos e/ou que condiciona a nossa ação. A própria pincelada figura algo, nela vemos a força aplicada, a velocidade, a rigidez, a fluição, o ritmo... nela podemos ter a sensação de frio ou de calor, de inquietação ou pacificação, de contradições, transporta-nos a outra imagética... O nosso diálogo com o exterior e interior provoca determinadas emoções, influenciando os nossos humores, reportando-nos para memórias e criando novas, onde a obra surge como materialização, em parte, deste processo. Por fim ela se abre e adquire novas interpretações face ao espectador, ao meio que está inserida e à forma como se apresenta.
2023 | Texto redigido para a folha de sala da Exposição